Matthew Prince é norte-americano, mas os seis anos que leva de visitas frequentes a Portugal, desde que a tecnológica Cloudflare entrou no país, fizeram com que percebesse a importância do futebol. Depois de criticar na rede social X o Governo português e dizer que Portugal “não é um país sério”, devido aos problemas com o aeroporto de Lisboa, a burocracia e os atrasos na imigração, reforça os ataques com uma analogia futebolística. “Portugal tem a oportunidade de marcar penálti sem um guarda-redes na baliza, mas estão a rematar na direção errada.”
Poucos dias depois de ter disparado contra Portugal na rede social, o CEO da Cloudflare dá uma entrevista ao Observador, à distância, em que volta a não medir as palavras contra o Governo. Rejeita que o ataque seja uma investida pessoal, motivada pela situação que terá ocorrido no passado domingo à noite no aeródromo de Tires. De acordo com o noticiado pelo jornal Eco, Matthew Prince queria voar sem que as suas bagagens fossem rastreadas. Na conversa com o Observador não só desvaloriza como rejeita o sucedido: “Não tenho absolutamente nenhuma ideia sobre o que estão a falar”.
“Adoro Portugal, adoro as pessoas, só estou zangado com o Governo de Portugal”, resume. Questionado sobre o Governo a que se refere, visto que o Executivo mudou desde que a Cloudflare se instalou no país, Prince diz que “isto não é sobre um Governo em particular”. “Do que posso dizer, os governos dos últimos seis anos falharam em cumprir com as suas promessas e não são sérios sobre tornar Portugal numa fábrica de unicórnios ou num hub tecnológico a sério”, afirma.
“Acho que já contactei praticamente por todas as vias [o Governo] e já levei a questão a quase toda a gente com quem consigo falar”, alega. “Não vou nomear especificamente quem é que me desiludiu, digo que em todos os níveis o Governo português me tem deixado desiludido.”
A Cloudflare está em Portugal há seis anos, onde tem um escritório que serve de sede às operações europeias. Atualmente, emprega 350 pessoas. A escolha de Lisboa foi feita após o brexit, como uma alternativa à sede europeia, até então em Londres. “Estávamos à procura de um local onde a Cloudflare pudesse continuar a crescer. Escolhemos Portugal pelas pessoas, não foi por causa de impostos”, explica. “Sei que há muita especulação à volta disso, de que poupamos dinheiro com os impostos — não poupamos nenhum dinheiro com os impostos ao estar em Portugal, isso é completamente irrelevante.”
Questionado sobre se em seis anos a empresa teve benefícios fiscais em Portugal, Matthew Prince nega que assim seja. “Não, não. Certamente não quando comparado com qualquer outro ponto onde estávamos.” Matthew Prince descreve a Cloudflare em Lisboa como uma empresa “diferente” de outras multinacionais que vieram para Portugal. “Não é sobre trabalho barato”, uma referência a muitas críticas que lhe têm sido feitas na rede X, que atribuem a presença da empresa em Portugal apenas em busca de salários e impostos mais baixos.
Honestly: across the board, Portugal has gotten significantly WORSE since we started making investments in the country. If the trend continues, we’ll stop investing. And if you’re considering it as a tech firm, you’d be crazy to without some hard reassurances from the government.
— Matthew Prince ???? (@eastdakota) May 25, 2025
No X, o executivo, que é também cofundador da tecnológica, falou em “promessas” feitas por governantes portugueses que “não foram cumpridas”. Mas, afinal, o que foi prometido à empresa para se instalar em Portugal? “O Governo prometeu ajudar a reduzir as complicações com a imigração para as pessoas que precisássemos de trazer para o país, porque não conseguíamos encontrar pessoas [em Portugal] que fossem especialistas nesses campos”, diz nesta chamada, referindo-se a áreas como inteligência artificial, aprendizagem automática ou ainda às funções de gestor de produto.
“Disseram que haveria assistência para minimizar a burocracia para podermos continuar a operar e que seriam um bom parceiro para nós quando interagíssemos com a União Europeia, enquanto nossa sede europeia. E, enquanto nós estivemos à altura dos nossos compromissos, eles não estiveram”, diz.
Em troca do investimento em Portugal, a Cloudflare comprometeu-se a “contratar pelo menos 100 pessoas nos próximos três anos, mais de metade deles cidadãos portugueses”. Prince refere que, na altura, a empresa viu “a oportunidade de atrair talento de topo”, incluindo “os cérebros” que saíram após a crise financeira de 2008, “que constituíram família e que estavam interessados em voltar para Portugal”. “Cumprimos com esse compromisso e reforçámo-lo com a contratação de pelo menos 300 pessoas nos primeiros seis anos.”
Matthew Prince afirma que a Cloudflare já “gastou milhões de euros” no país. “Se juntar todos os compromissos que fizemos, ter um novo escritório, contratar… Só os salários de 400 funcionários, é um investimento grande que fizemos no país. Mas seria o dobro se o país estivesse à altura das promessas.” Com nova insistência para quantificar este investimento, Prince não concretiza um número, recorrendo novamente à expressão “pelo menos dezenas ou centenas de milhões de euros”.
Em outubro, quando foi inaugurado o novo escritório, em Alcântara, Matthew Prince criticou publicamente as questões que agora reforça: aeroporto, imigração e burocracia. Pedro Reis, ministro da Economia, estava na assistência. Ao Observador, explica que teve oportunidade de falar com o ministro nessa ocasião. “Houve promessas de que isto seria resolvido e nada disto foi resolvido.”
▲ Matthew Prince e Michelle Zatlyn, cofundadora e presidente da Cloudflare
Steve Jennings
CEO diz que recebeu “contactos” do Governo após os tweets, mas afirma não ter reuniões marcadas
No X, na segunda-feira, Matthew Prince queixou-se de não ter recebido contactos de membros do Governo sobre a situação que expôs na rede social. A pressão foi aplicada através de uma sondagem, onde os internautas votaram na opção “zero contactos”.
Any guesses how many Portuguese politicians have reached out to talk about the concerns I raised?
— Matthew Prince ???? (@eastdakota) May 26, 2025
“Fiquei inicialmente desapontado sobre o pouco contacto.” Nesta entrevista, Prince diz que não recebeu logo contactos sobre os tweets, só apenas “após a sondagem”. “Aí sim, algumas pessoas entraram em contacto. E estou disponível para ter várias reuniões.”
Não especifica de quem partiram os contactos, afirmando disponibilidade para “falar com qualquer pessoa”. Mas, até agora, diz que não teve “ainda reuniões”. “Mas ficaria contente se tivesse uma reunião com qualquer pessoa que nos ajudasse a resolver este problema.”
Cloudflare repensa Lisboa como sede europeia e teme mudanças nas contratações ambicionadas
Ao longo da conversa, Matthew Prince repete que as irritações que levou para o X estão ligadas à empresa e não são um “caso pessoal”. Relatou a situação de um “engenheiro brilhante que está a pensar não só deixar Portugal mas também a Cloudflare”. Explica que já não vinha a Portugal há algum tempo e que, no espaço de uma semana, ouviu várias histórias sobre as dificuldades burocráticas com vistos e emissões de títulos de residência.
Essas dificuldades, segundo o CEO, estão a custar-lhe funcionários. “Temos 15 casos de renovação de vistos que estão a arrastar-se há anos. E, mais uma vez, fizemos chegar esta questão a toda a gente. Temos dez funcionários que não podem sequer renovar a autorização de residência, porque a burocracia demora tanto que não conseguiram fazê-lo antes de o visto expirar”, afirma. Contextualiza que, “em vários casos, são alguns dos gestores mais seniores que estão a treinar o resto da equipa”.
“Todas estas pessoas são trabalhadores altamente qualificados, que tiveram autorização para estar aqui”, acrescenta. Alega até que ouviu “desculpas sobre como há falta de impressoras para emitir os títulos”.
Prince explica que, por falta de recursos humanos especializados em gestão de produto, a Cloudflare recorre a funcionários de outros escritórios, que se mudam para Portugal para formar engenheiros portugueses. “Adoraríamos contratar mais portugueses, mas não temos pessoas que possam supervisionar e treiná-los, porque precisamos de ter pessoas que vêm de outras localizações da empresa, como os EUA, transferi-las do escritório de Londres para aqui, da Alemanha também.”
▲ Prince é CEO e cofundador da Cloudflare, criada em julho de 2009
Bloomberg via Getty Images
Reforça, então, a ideia do travão ao investimento, como já tinha dito no X. “Não posso investir se não posso ter pessoas que venham para Portugal e que treinem as equipas. Isto não é canalização, é incrivelmente difícil”, diz, referindo-se às competências necessárias para as funções. Afirma que, a partir de Lisboa, está a ser desenvolvido “o futuro da IA”.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 2.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui.]
Recuperando a ideia de que a Cloudflare se arrisca a “perder funcionários” por questões burocráticas, atira que não é só a empresa que perderá. “Alguns gestores de produto voluntariam o seu tempo para irem a universidades como a Nova e ajudarem em formações para a próxima geração de gestores de produto”. Na lógica de Prince, se estes profissionais saírem do país, “pelo menos em Lisboa vão perder professores que estão a formar a próxima geração” de gestores de produto, “que são como os maestros de uma sinfonia”, exemplifica.
Prince diz que quer aumentar os esforços de contratação, mas que a situação em Portugal “não permite”. Também admite que a empresa está a reconsiderar a posição de Lisboa como sede europeia. “A resposta é sim, porque não podemos continuar a operar desta forma.”
Compromete-se, no entanto, a “ter sempre um escritório em Lisboa”, desenvolvendo que a “equipa em Lisboa é de classe mundial e está a fazer algum do trabalho mais importante” da empresa. “Não vamos encerrar o escritório, o trabalho ou as pessoas que temos aqui.”
“Mas adoraria poder dizer-lhe que nos comprometemos nos próximos três anos a ter mil funcionários em Lisboa — e não sei se posso fazer isso”, afirma. “De forma gradual, às pessoas que contrataríamos para Lisboa, estamos a perguntar se podem ir para Londres, Munique, Amesterdão, porque sabemos que podemos criar lá equipas [à volta de funcionários mais experientes].”
Prince diz ainda que, por causa do congestionamento do aeroporto de Lisboa, a capital tem sido cada vez menos escolhida como local de encontro das operações europeias. “Para ser a nossa sede europeia, é bom que seja o sítio em que a nossa equipa na Europa se pode encontrar. Se não há um local onde podemos reunir a equipa na Europa vamos para outro lugar — e esse sítio tornar-se-á na nossa sede europeia”, atira. “Não podemos usar Lisboa como ponto de reunião, porque não conseguimos garantir que saem do aeroporto num horário adequado”, repete.
Questionado sobre se tem alguma localização em mente, se realmente avançarem com a “destituição” de Lisboa, fala em “operações da Cloudflare instaladas em Londres, Paris, Amesterdão, Estocolmo, Munique e outras excelentes cidades”. “E de todas já recebi mais contactos dos governos dessas cidades, a dizer que nos receberiam, do que das autoridades portuguesas”, avança, concretizando que os supostos contactos foram feitos “desde os tweets”.
Prince era um “cheerleader” por Portugal. Há três anos, “parou” de recomendar o país
O CEO da Cloudflare admite que, há seis anos, Lisboa não era o destino que mais preferências reunia dentro da empresa para a sede europeia. “Nos primeiros três anos, eu era o maior cheerleader de Portugal na comunidade tecnológica global.”
Afirma que até recomendou o país a “uma série de empresas que se transferiram para Portugal”, falando sobre a PagerDuty. “Havia tecnológicas a perguntar-me qual era a experiência. Nos primeiros três anos dizia que Portugal era o melhor, que o Governo fazia de tudo para apoiar empresas inovadoras, havia uma qualidade de vida muito boa e as universidades faziam as apostas certas nas tecnologias certas.”
Até que passou a ter problemas, diz. “Há três anos, parei de recomendar Portugal [a outras empresas].” “Digo-lhes que há os ingredientes certos, mas problemas sérios. E, até que sejam resolvidos, recomendo cautela.”
“Agora, se alguém me ligar, vou dizer para não considerarem Portugal.” No X, na segunda-feira, chegou até a abrir a caixa de mensagens a executivos que estejam a considerar Portugal, para tirar dúvidas. Refere que recebeu contactos, mas não revela de quem.
Alega que a burocracia “está a matar a economia portuguesa”. E que, sabendo o que sabe hoje, teria tomado outra decisão. “Se tivéssemos tomado a decisão noutra altura, iríamos para outro local.”
Matthew Prince diz que “não há base factual” sobre alegado incidente em Tires
Na segunda-feira à noite, o jornal Eco avançou que o CEO da Cloudflare teria tido um “incidente” no Aeródromo Municipal de Cascais. Ao tentar embarcar no domingo à noite, na sua aeronave privada, terá tido uma “má reação perante o rastreamento da sua bagagem” em Tires, afirmou ao jornal Jorge Roquette Cardoso, diretor do aeródromo.
Questionado pelo Observador sobre esta notícia, Prince diz que “não há base factual para essa história”. “Não tenho absolutamente nenhuma ideia sobre o que estão a falar” na notícia, repete. Perante a insistência do Observador sobre se esteve no aeródromo no domingo, como relatado no artigo, Prince afirma que o mesmo foi uma “novidade total”. “Às vezes as pessoas inventam coisas”, afirma.
Já sobre se costuma frequentar o aeródromo ou se apenas viaja através do aeroporto de Lisboa, Prince explica que “há muitas formas” que usa para entrar e sair de Portugal. “Por muitas razões de segurança, não falamos sobre quando viajo ou como viajo”, diz. “Estou na lista de sanções da Rússia, portanto há muitas razões para ter cuidado com a segurança.” Prince integra, a título individual, a lista de sanções da Rússia, alegadamente devido ao trabalho que a empresa faz na área da cibersegurança. A empresa fez também uma pausa nas operações na Rússia em 2022, após a invasão da Ucrânia e o início da guerra.
Carlos Carreiras, o autarca de Cascais, concelho onde fica o aeródromo, fez um elogio no Facebook à forma como as autoridades terão gerido a situação com Matthew Prince — que o CEO diz “ser novidade”. Também no X, alguns comentários levantam suspeitas sobre o alegado incidente em Tires e os tweets críticos a Portugal, sendo que os primeiros foram feitos no domingo à noite. A suposta noite do incidente em Tires.
“Não há absolutamente qualquer relação”, diz Prince. “Nada nesta situação é sobre mim. Tenho a sorte de poder comprar bilhetes que me permitem passar a fila da imigração, só que a maioria dos nossos funcionários não tem essa capacidade. Nesses casos, temos incidentes em que as pessoas podem levar seis horas só para saírem do aeroporto.”