terça-feira, 26 de maio de 2026

40 Anos de The Final Countdown

Há 40 anos, o mundo da música voltava seus olhos para a Suécia. Depois de 5 anos do fim do ABBA, o país escandinavo conseguia novamente colocar sua bandeira entre as maiores nações da música, batendo de frente com Estados Unidos e Inglaterra, através de um disco que marcou época: The Final Countdown. O terceiro disco do Europe foi lançado em 26 de maio de 1986, e alcançou nada mais nada menos que a oitava posição na parada da Billboard estadunidense, bem como primeira posição em diversos países europeus, além de várias posições altas em diversos outros charts mundo afora. 

O Europe era uma banda de relativo sucesso dentro do mercado sueco. Com dois discos lançados (Europe, de 1983, e Wings of Tomorrow, de 1984), em 85 ocorre uma grande mudança na formação do Europe. Sai o baterista Tony Reno e entra Ian Haughland, além do tecladista Mic Michaeli, tornando o quarteto Europe agora um quinteto. Ao mesmo tempo, o grupo já estava começando a preparar o novo álbum, que tinha como principal objetivo tentar conquistar o - complexo - mercado estadunidense. 

Cartaz de On the Loose,
destacando Joey Tempest

As primeiras canções escritas foram "Rock the Night" e "Ninja", as quais surgiram durante a turnê de divulgação de Wings of Tomorrow. Porém, ainda em 1985, algo acontece que muda totalmente a história do Europe. O diretor Staffan Hildebrand convida Joey Tempest, vocalista do grupo (vale aqui lembrar os outros músicos da banda, John Norum na bateria e John Levén no baixo, além de Haughland e Michaeli, sendo esta a chamada formação clássica dos suecos) para fazer a trilha sonora do filme On The Loose

Tempest entregou a faixa solo "Broken Dreams", que junto com "Rock the Night" e "On the Loose", saíram em um EP, em abril de 1985, que era vendido nos cinemas suecos antes da apresentação do filme, e hoje tornou-se uma raridade cobiçada pelos fãs, principalmente fora da Escandinávia. O grupo também aparece no filme, interpretando ao vivo "Rock the Night", que também saiu em um single exclusivo (com uma regravação de "Seven Doors Hotel", faixa do primeiro disco da banda, no lado B), e isto fez grande sucesso, levando o single de "Rock the Night" a alcançar número 4 nas paradas suecas. 

Devido ao enorme sucesso de On the Loose e "Rock the Night", o Europe saiu para uma grande turnê em sua terra natal durante todo 1985, apresentando três novas canções: "Danger on the Track", "Love Chaser" e a balada "Carrie", que inicialmente era apenas com teclados e vocais. Ao mesmo tempo, novas canções começavam a surgir. Eis que então, após a longa turnê, e com mais algumas canções na bagagem, o grupo entra nos estúdios para gravar seu terceiro e grandioso disco, em setembro de 1985, no Powerplay Studios de Zurich, Suíça, tendo como produtor o estadunidense Kevin Elson, o qual tinha no currículo o Journey, e sabia a receita de como "conquistar" o mercado dos EUA.

O Europe no encarte de The Final Countdown

Com mixagem no Fantasy Studios dos Estados Unidos, a cargo de Elson e Wally Buck, durante o março de 1986, além da masterização de Bob Ludwig na clássica Masterdisk, The Final Countdown chegou às lojas, como citado acima, exatamente em 26 de maio de 1986, e já abre com aquele que para mim é o maior clássico do grupo, a faixa-título "The Final Countdown". Tenho esta música como "Anna Julia" é para o Los Hermanos, ou "White Rabbit" é para o Jefferson Airplane, ou seja, uma canção atemporal de uma banda, mas que nada tem a ver com a banda em si, sendo basicamente totalmente diferente de tudo o que foi feito antes ou depois, mas que mesmo assim, é inegável sua importância, goste ou não. 

Single de "The Ginal Coutdown"

"The Final Countdown" começa com os barulhos de sintetizadores que levam para um dos mais conhecidos riffs de teclados de todos os tempos, em um crescendo mágico (na linha do que é a introdução de "Mr. Crowley", de Ozzy Osbourne), trazendo então o Europe no ritmo cavalgante, para a repetição do riff intodutório. Esse riff havia sido criado anos antes por Tempest, em uma brincadeira de estúdio provavelmente no final de 1981, início de 1982 que acabou evoluindo para algo que seria a faixa de abertura dos shows do Europe. Levén sugeriu que Tempest deveria escrever uma canção baseada naquele riff e assim, inspirado por "Space Oddity", de David Bowie, o vocalista criou  o maior clássico da história dos suecos. Os vocais de Tempest rememoram a história de Bowie, pegando exatamente da contagem final. É impossível não se contagiar pela canção, com backing vocals bem encaixados que facilmente nos fazem reproduzi-los, assim como a ampla citação ao nome da canção, que gruda literalmente na cabeça. 

Norum manda ver no seu solo, o qual considero ainda hoje o mais bonito de sua carreira, e voltamos para a intro, repetindo o refrão e concluindo uma das melhores músicas do hard oitentista com a voz de Tempest sendo repetida em sua mente, e o jogo já ganho a partir daqui. Uma nota adicional é que durante as gravações do álbum, Tempest teve uma reação alérgica a produtos com trigo, forçando o vocalista a mudar sua dieta para conseguir completar o álbum. Para se ter uma ideia, "The Final Countdown" teve os vocais gravados em Estocolmo, enquanto a banda permaneceu na Suíça, enquanto os vocais das demais canções foram regravadas, de última hora, na Califórnia. De qualquer forma, se tornou um baita sucesso! A canção tornou-se obrigatória desde então nas apresentações do grupo, tendo sido apresentada pela primeira vez no show que o grupo fez em Gävle, Suécia, em 29 de abril de 1986. Eu acho que ouvi essa música quando tinha três, no máximo quatro anos. Tenho uma vaga lembrança de sair - ou entrar - de um cinema na minha cidade, Pedro Osório, levado pelas mãos de minha mãe, e de ficar impressionado com aqueles teclados, e ainda hoje, passados 40 anos, me emociono sempre que ouço a canção, que automaticamente me traz uma saudosa memória de minha falecida mãe. Onde quer que ela esteja, além de minhas memórias, certamente ela foi uma das responsáveis por me tornar o colecionador de discos e aficcionado por música que me tornei.

Single de "Rock the Night"

Seguindo com o disco, Norum comanda o riff pesado e as alavancadas da intro de "Rock the Night", já presente no citado On The Loose. Para The Final Countdown, o Europe fez pequenas mudanças sonoras, tirando a parte mais crua do que foi gravado em 1985, e um pouco mais "limada". O baixo pulsa ao invés de cavalgar como em "The Final Countdown", e aqui, Tempest não está exagerando nos vocais, tornando a canção bem agradável do que está presente na bolachinha. Mais um refrão contagiante e grudento, e Norum fazendo dois solos bem virtuosos, com boa velocidade nos dedos. Se o jogo estava ganho em "The Final Countdown", aqui o Europe já está controlando totalmente o campo, e com apenas 15 minutos de audição, decreta a goleada sonora deste disco com a baladaça "Carrie".

Single de "Carrie"

Como ela era uma canção apenas para piano e voz, para The Final Countdown ela recebeu o time completo. O piano elétrico de Michaeli surge com outro riff inesquecível e mágico, para acompanhar a voz dolorida de Tempest, comentando sobre o fim de um relacionamento, lembrando que Carrie, a menina, nunca existiu de verdade - ao menos com este nome - segundo o vocalista. A entrada do Europe vai crescendo a canção, que explode no refrão entoando o nome de "Carrie", e pronto, estamos já fãs de Europe. Três canções que são a melhor representação do que foram os anos 80 musicalmente, com teclados e sintetizadores dominando as camadas sonoras, bases quadradas e simples de baixo e bateria, guitarristas fillers e repletos de virtuose, e um vocalista exageradamente gritante, e que para muitos, é exatamente o que torna os anos 80 terrível, mas para mim, é o espetáculo musical extremamente excelente. Ouçam o solo de Norum em "Carrie" e deleitem-se com algo simples, mas belíssimo, e a faixa encerra-se com uma bonita partipação dos teclados.

Voltamos aos hards mais tradicionais em "Danger on the Track", com um riff combinado de teclados, guitarras e baixo, sem ser no ritmo pulsante, e um ótimo trabalho vocal. Para quem ainda não pegou, o trabalho de construção do Europe mostra-se novamente simples mas grudento, com estrofe refrão-estrofe-solo construídos perfeitamente para o fã cantar. Admirem o solo de Michaeli aqui, lembrando bastante Jon Lord nos anos 70, já que ele utiliza um hammond para o tal, e também o bom solo de Norum, com muitos bends e velocidade. O lado A fecha com "Ninja", faixa mais veloz, cujo riff rapidamente me remete à "Lights Out" (UFO), em uma canção bastante animada, que também poderia figurar como trilha de Animes como Demon Slayer ou Naruto. Segunda faixa mais antiga do disco, eu curto bastante o solo de Norum aqui, utilizando notas mais agudas e vibratos. Podem me chamar de louco, mas tenho muita certeza que há forte inspiração em Michael Schenker para esta canção. 

Pôster que acompanha a versão original sueca
Single de "Cherokee"

O lado B surge com as batidas e o refrão grudento de baixo, guitarra e teclados para "Cherokee", faixa inspirada nos nativos americanos (mais um indicativo de quem eles queriam conquistar), sendo um hardão tipicamente oitentista, com os exageros vocais de Tempest tomando conta das caixas de som, e destacando o baixo marcante de Levén, além do forte refrão e dos belos solos de Norum e Michaeli, este último me remetendo facilmente ao solo de Eddie Van Halen em "Jump". Esta foi a última canção criada para o álbum, ficando pronta uma semana antes das gravações na Suíça, e acabou se tornando o quarto single a ser lançado daqui. Seguimos com os teclados e as vocalizações que abrem "Time Has Come", uma bonita balada inicialmente, que ganha bastante dramaticidade com a entrada do violão, mas, com a entrada da guitarra, baixo e bateria, torna-se outro potente hard oitentista, onde o solo de Norum aqui não é recheado de fillers, mas sim mais pegado e com belos bends e vibratos, como uma boa balada farofa exige.

O single de “On the Loose”,
ainda como trilha do filme

"Heart of Stone" mantém o padrão oitentista de refrão forte e muito teclado, mas aqui, com Norum fazendo mais estripulias em seu ótimo solo, até com uma pegada mais bluesy no início, mas detonando notas rápidas na sequência. A veloz "On the Loose" nos leva para a reta final do álbum, e também ao já citado filme, com outro magnifico solo de Norum, exalando virtuosismo em notas muito velozes e o nome da canção grudado na nossa mente, fechando com "Love Chaser", iniciando com os teclados que nos remetem a "The Final Countdown", mas logo após, a entrada da guitarra e do baixo cavalgante modificam essa ideia, sendo uma faixa mais simples, onde os teclados e as vocalizações se sobressaem junto de mais um refrão marcante. 

Cinco singles foram lançados de The Final Countdown: "The Final Countdown", "Love Chaser", "Rock the Night", "Carrie" e "Cherokee.". Tempest sugeriu a faixa título como primeiro single, apesar dos demais quererem 'Rock The Night", já que achavam que a canção, por ser diferente das demais do grupo, jamais se tornaria um hit. Porém, a gravadora concordou com Tempest, e então, o compacto da faixa-título atingiu o primeiro lugar em 25 países, incluindo os charts britânicos, onde permaneceu na primeira posição por duas semanas, França e Alemanha, chegando a oitava posição nos Estados Unidos. Já seu vídeo tem mais de 1,3 bilhões de visualizações no YouTube.

Single de “Love Chaser” na trilha
de World Grand Prix Pride One

O single de "Rock the Night" também saiu-se relativamente bem, conquistando segunda posição na Bélgica e Holanda, décima segunda no Reino Unido e vigésima segunda nos Estados Unidos, país onde o single de "Carrie" é o que atingiu a maior posição, chegando no terceiro lugar, e curiosamente atingindo como máximo apenas a décima posição na Irlanda e Suíça, fracassando nos demais países. "Cherokee" não conseguiu emplacar na Europa, e atingiu a modesta posição 72 nos Estados Unidos. Por fim, há também o raro single de "Love Chaser", lançado apenas no Japão, e que não emplacou por lá. Além disso, a canção está na trilha do filme World Grand Prix Pride One, em versões cantada e instrumental, assim como "Carrie" surge na trilha da mesma forma.

A banda começou a turnê de promoção de The Final Coundown no citado show de 29 de abril. O álbum era para ter saído um pouco antes disso, mas acabou atrasando devido a problemas com a capa. No dia do lançamento do disco, há 40 anos, o Europe encerrava a parte sueca da turnê com a segunda apresentação em dois dias (25 e 25) na cidade de Solna, no Solnahallnen, os quais foram filmados para uma transmissão televisiva que acabou culminando no clássico VHS/DVD The Final Countdown Tour ’86 (que originalmente, saiu somente - obviamente - no Japão).

Na sequência, foi a vez dos nipônicos receberem o Europe, onde eram tratados como deuses. O grupo aterrisou por lá em setembro de 1986, fazendo quatro show em Tóquio e ainda concertos em Nagoya e Osaka. Porém, apesar do sucesso, nem tudo era festa nos camarins do Europe. Norum sentia-se cada vez mais incomodado com as diferenças musicais que o Europe havia se tornado, bem como mostrava grande insatisfação com os caminhos que o empresário da banda, Thomas Erdtman, estava dando para os suecos. Em comum acordo, Norum decidiu ficar para a segunda parte da turnê sueca, a qual começou em Örebro no dia 26 de setembro de 1986, assim como a perna europeia, que incluiu apresentações em TVs locais e entrevistas. Porém, em 31 de outubro de 1986, após uma apresentação em Amsterdam, Holanda, Norum pulou da barca, alegando insatisfação com a quantidade de teclados no som do grupo, os quais, segundo ele, enterraram as guitarras.

VHS que cobriu a turnê do
quarentão The Final Countdown

Norum foi então substituído por Kee Marcello (ex-Easy Action), o qual estreia nos clipes de "Rock the Night", "Cherokee" e "Carrie", surgindo oficialmente ao público na apresentação de 12 de dezembro de 1986 na Alemanha, durante o Peters Popshow de Dortmund. Ainda na sequência da turnê, a apresentação no Hammersmith Odeon de 1987 acaba tornando-se o cobiçado VHS/Laser Disc The Final Countdown World Tour

Como curiosidade, anos depois, em 2007, oito das dez faixas do LP aparecem no filme Hot Rod. E para encerrar, The Final Countdown vendeu muito. Conquistou a primeira posição na Suécia (platina, com 100 mil cópias vendidas), Espanha (platina quádrupla, com 400 mil cópias vendidas), Finlândia (platina, com 70 mil cópias vendidas), e Suíça (platina, com 50 mil cópias vendidas), segunda na Itália, terceira na Austrália (platina dupla, com 140 mil cópias vendidas), Holanda (ouro, com 80 mil cópias vendidas) e Nova Zelândia, quarta na Noruega (platina, com 100 mil cópias vendidas), quinta na Áustria, sexta no Canadá (platina dupla, com 200 mil cópias vendidas) e Alemanha (ouro, com 250 mil cópias vendidas), oitava nos Estados Unidos (platina tripla, com 3 milhões de cópias vendidas) e nona no Reino Unido (ouro, com 100 mil cópias vendidas). O aniversariante já ultrapassa a marca de 12 milhões em vendas ao redor do mundo. 

Contra-capa do LP

Track list

1. The Final Countdown

2. Rock the Night

3. Carrie

4. Danger on the Track

5. Ninja

6. Cherokee

7. Time Has Come

8. Heart Of Stone

9. On The Loose

10. Love Chaser





terça-feira, 3 de março de 2026

Cinco Discos Para Conhecer: Willy Verdaguer



Nascido em 21 de julho de 1945 na Argentina, Willy Verdaguer é com certeza um dos maiores nomes da música da América Latina em todos os tempos. Ele construiu sua carreira musical no Brasil, onde veio morar nos anos 1960 e se destacou como contrabaixista, compositor, arranjador, diretor musical e maestro, gravando seu nome na cena da música brasileira tocando ao lado de gigantes da MPB, do Pop e do Rock nacional. São inúmeros discos ao longo de uma carreira de 60 anos, e selecionar apenas cinco foi difícil, mas aí vão eles. 

 Beat Boys - Beat Boys [1968]

Famosos por acompanharem Caetano Veloso no III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em 1967, com "Alegria, Alegria", o Beat Boys foi um dos grandes nomes da psicodelia nacional no final dos anos 60. Comandados por Tony Osanah e Willy Verdager, o grupo foi pioneiro ao misturar rock e MPB em um festival de música popular, e logo ganhou espaço para lançar seu primeiro e único disco. O disco é rock 'n' roll puro misturado a muita psicodelia como atesta "Abrigo de Palavras em Caixas de Céu", curiosamente cantada em inglês, "Torta De Morangos", misturando espanhol e inglês, trazendo até citação de valsa, música clássica e tango, além da receita da torta dada em português, e a engraçada "Era Uma Menina", composta por Verdaguer, com um forte sotaque portenho e um interessante trecho orquestral. Verdaguer se destaca no arranjo para "Pauvre Cœur", de André Hossein e Gilles Thibaut aqui chamada "Pobre Coração", com o tocante tema de destaque do banjo, harmônica e orquestra, na monumental "Aria Para A Corda Sol", de Bach, na viajante "Abre, Sou Eu", onde órgão e guitarra chamam a atenção para esta faixa do italo-argentino Billy Bond, originalmente chamada "Abre, Soy Yo" (com quem Willy tinha sido parceiro no grupo Los Guantes Negros), e "Your Mother Should Know", dos Beatles, que virou a bonitinha "Coração Que Ninguém Mais Cantou", com um belo arranjo vocal, Temos ainda duas versões para faixas cantadas em inglês, "Wake Me, Shake Me" (de Al Kooper), alucinante e lembrando Animals da segunda metade dos 60, destacando a guitarra ácida de Osanah e o órgão de Toyo, além claro, da marcação fundamental do baixo de Verdaguer, e a linda versão de "A Time For Remembrance" (The Cowsills), com um belíssimo arranjo vocal, além da versão de "Green Tambourine" (Lemon Pipers), aqui batizada de "O Meu Tamborim". Psicodelia puramente latina para quem achava que os ácidos só contagiaram Estados Unidos e Reino Unido. 

Tony Osanah (guitarra e voz), Cacho Valdez (guitarra), Toyo (órgão), Willy Verdaguer (baixo) e Marcelo Frias (bateria)

1. A Felicidade

2. A Time For Remembrance

3. O Meu Tamborim

4. Era Uma Menina

5. Abre, Sou Eu

6. Abrigo De Palavras Em Caixas De Céu

7. Wake Me, Shake Me

8. Pobre Coração

9. Sempre Esperando

10. Canção Que Ninguém Mais Cantou

11. Aria Para 4ª Corda De Sol

12. Torta De Morangos


Caetano Veloso - Caetano Veloso [1968]

O disco de estreia de Caetano Veloso conta com os Beat Boys como banda de apoio em algumas faixas, e claro, Willy deixa sua marca lá. Se você admira o riff de guitarra e teclado no inicio da canção, e o andamento da clássica "Alegria, Alegria", saiba que o responsável por ambos é o argentino. Preste atenção e veja como é o baixo quem faz a sustentação para todos os demais instrumentos deste clássico da Tropicália. Não à toa, quem estuda música e arte no Brasil, reconhece que o arranjo dessa canção, de autoria de Willy, é um marco para a entrada da guitarra elétrica e do baixo elétrico na MPB, criando então o rock em nosso país. Mas há mais em Caetano Veloso e nas criações de Willy. Temos o sacolejante baixo na psicodélica "Anunciação", dando indícios do que Willy faria ano depois com o Secos & Molhados, e o agito de " Soy Loco Por Ti, América", onde o riff inicial é um dos mais marcantes da carreira de Willy, além de ele comandar o ritmo empolgante da festa que é esta animada canção. O Beat-Boys faz as bases ainda da balada-rock "No dia Que Eu Vim-me Embora", entoam a psicodelia tropicaliana em "Clara", e se divertem na sensacional "Ave-Maria", cantada em latim e tendo o baixo de Willy novamente como destaque, solando enquanto Caetano entoa sua "oração". Era a Tropicália começando a ferver, e semanas depois, explodir no Brasil com o sensacional Tropicália ou Panis Et Circensis, com os Mutantes ocupando o espaço dos Beat-Boys. Mas as bases já haviam sido lançadas aqui.

Caetano Veloso (Vocais, Violão)

Com: Cacho Valdez (guitarras em 3, 4, 6, 9, 10, 11)

Willy Verdaguer (baixo em 3, 4, 6, 9, 10, 11)

Tony Osanah (guitarras, violão em 3, 4, 6, 9, 10, 11)

Marcelo Frias (bateria em 3, 4, 6, 9, 10, 11)

Toyo (órgão em 3, 4, 6, 9, 10, 11)

Gal Costa (Vocais em 9)

Mutantes (banda de apoio em 12)

1. Tropicália

2. Clarice

3. No Dia Em Que Eu Vim-me Embora

4. Alegria, Alegria

5. Onde Andarás

6. Anunciação

7. Superbacana

8. Paisagem Útil

9. Clara

10. Soy Loco Por Tí, América

11. Ave Maria

12. Eles

Secos & Molhados - Secos & Molhados [1974]

Criador de riffs, Willy acabou apresentado à João Ricardo, e foi responsável por criar obras como a famosa introdução de "Sangue Latino", ou  o riffzão de "Amor", considerado o mais fundamental feito no Brasil, tornando Verdaguer uma referência no baixo, ambas presentes no álbum de estreia do Secos & Molhados. Mas ao meu ver, é no segundo disco da banda que ele consegue colocar realmente a mão na massa e fazer uma performance impressionante. Se não vejamos, o que é a estupidez de velocidade do riff de "Vôo", arrebentando as caixas de som com uma velocidade impressionante, mandando ver na palhetada como se fosse um riff de Heavy Metal. A mesma velocidade surge no riffzão de "Angústia", uma pancada que não entendo como ainda não foi feita uma versão completa com guitarras e um hammondzão, já que é puro hard setentista. Junto com o piano, é o monstro responsável para a base do vocal arrepiante de Ney Matogrosso no arrepiante blues "Delírio" (Cazuza certamente ouviu muito essa música para criar "O Tempo Não Pára"). Além disso, conduz "Flores Astrais" com maestria, em uma base que por si só é um lindo solo de baixo (acompanhe e se delicie com a linha do instrumento durante as vocalizações iniciais. as estrofes e o solo de flauta, além da marcação pulsante do refrão). Em "Hierofante", também o baixo é um instrumento de destaque, solando ao fundo ao invés de simplesmente fazer marcação do tempo, em escalas velozes que acompanha a furiosa guitarra de John (o trecho onde guitarra e baixo duelam é sensacional). Por mim, faz o simples, mas marcante, acompanhamento do pseudo-blues "Toada & Rock & Mambo & Tango & etc.", mostrando que também era um gigante quando tinha que fazer o básico. Um dos melhores trabalhos em toda a sua carreira. 

Ney Matogrosso (vocais), João Ricardo (vocais, violões, harmônica), Gerson Conrad (vocais)

John Flavin (violão solo em 1; guitarras em 2, 7, 8, 12 e 13), 

Jorge Omar (violão em 3, 5 e 10; viola em 10)

Emilio Carrera (piano em 2, 4, 7, 8, 9 e 12; órgão em 2 e 12; sanfona em 13)

Norival D'Angelo (bateria em 2, 6, 8, 12 e 13; timbales em 4, percussão em 7)

Sérgio Rosadas (flauta transversal em 2, 4 e 11)

Willie Verdaguer (violão baixo em 1, baixo em 2, 4, 6, 7, 8, 12 e 13), 

Triana Romero (castanholas em 1)

1. Tercer Mundo

2. Flores Astrais

3. Não: Não Digas nada

4. Medo Mulato

5. Oh! Mulher Infiel

6. Vôo

7. Angústia

8. O Hierofante

9. Caixinha de Música do João

10. O Doce e o Amargo

11. Preto Velho

12. Delírio

13. Toada & Rock & Mambo & Tanto & Etc. 


João Ricardo - João Ricardo [1975]

Ok, fica meio estranho colocar um disco do Secos & Molhados e este do João Ricardo aqui, mas é que a participação de Willy no álbum de estreia do eterno português é crucial. Se não, ouça suas linhas estonteantes de faixas como os rockaços "Rock E Role Comigo", "Se Sabe, Sabe" e "Salve-Se Quem Puder", na leve e hipnotizante "Janelas Verdes", onde seu baixo marca e sola conduzindo magnificamente esta linda canção. Sem sombra de dúvidas, seu trabalho na paulada "Viva E Deixe Viver" e no mini-épico prog "Sorte Cigana", esta forte candidata a melhor música de toda a carreira de João Ricardo (incluindo o Secos & Molhados), é um atestado final de por que o cara é um dos maiores baixistas da América Latina. E o que é o seu solo na introdução de "Balada Para Um Coiote"? E ainda resgatar o riff de "Amor" na mesma faixa, que coisa mais linda! Willy puxa o ritmo da caribenha "Os Metálicos Senhores Satânicos", e além disso, é responsável pelos arranjos de 10 das 11 canções do disco, com destaque para o de "Vira Safado" - com importante participação do baixo na marcação. Depois daqui, sua carreira perambulou por diversos outros gêneros, mas em termos de rock, João Ricardo para mim é a melhor performance de Willy ao baixo. 

João Ricardo (violão de 6 cordas, violão de 12 cordas, harmônica, percussão)

Roberto de Carvalho (guitarra, steel guitar), Emílio Carrera (órgão, piano, sintetizador, sanfona), Pestana (flauta, saxofone tenor, alto saxofone), Willy Verdaguer (baixo), Roberto De Barros (bateria)

1. Salve-Se Quem Puder

2. Vira Safado

3. Janelas Verdes

4. Sorte Cigana

5. Se Sabe, Sabe

6. Balada Para Um Coiote

7. Rock E Role Comigo

8. Fofoquinha 

9. Os Metálicos Senhores Satânicos

10. Doce Doçura

11. Viva E Deixe Viver

Verdaguer - Humauaca [1994]

A estreia de Willy em carreira solo acontece quase 30 anos depois de ele começar a sua carreira como músico, e é uma pedrada. Ao lado de um timaço musical, o músico cria aqui uma das melhores obras do progressivo nacional nos anos 90. Faixas como as complexas "Charara",  "Dança Dos Dedos" e "Jogo da Memória", atestam cada vez mais a genialidade de Verdaguer para criar riffs incríveis. As influências de nomes como King Crimson, Focus e Gentle Giant são nítidas aqui. Mas há bem mais do que os gigantes do prog europeu ao longo de Humauaca. Aprecie o ritmo dançante de "Nova Espanha", com ótima participação da flauta de Marcelo Mig e da guitarra de Marcelo Pizzarro, além de um solo magistral de Verdaguer, com o baixo carregado de efeitos, as lindas "Montanhas" e "Humauaca", as quais apresentam fortes inspirações latinas, tendo a faixa-título vocais que nos remetem ao Vox Dei de La Biblia, e o swing brazuca de "Galho de Arruda", trazendo Derico (aquele, do Sexteto do Jô) no saxofone, Derico este que dá um show à parte na já citada "Jogo da Memória". Quer curtir um blues portenho, vibre com seu uísque e rasgue seu portunhol cantando "Rara Vez". E fechando a audição, delicie-se com os mais de dez minutos de experimentações e variações em "Pulomelu", simplesmente sensacional. Daqueles discos quase desconhecidos, mas com uma qualidade imensurável!

Willy Verdaguer (baixo), Marcelo Pizzarro (guitarras), Tadeu Passareli (teclados), Marcelo Mig (flauta), Gilberto Faveri (bateria)

com

Eduardo Avena (percussão)

Derico Sciotti (saxofone)

Luiz De Boni (sintetizador em 4)

Billy Bond (vocais em 4 e 9)

1. Dança Dos Dedos

2. Nova Espanha

3. Charara

4. Humahuaca

5. Pulomelu

6. Galho De Arruda

7. Montanhas

8. Jogo Da Memória

9. Rara Vez

Bônus Track

Inspirado pelo meu amigo e colega de Consultoria do Rock Marcello Zapelini, e com uma discografia tão vasta, ficar apenas em cinco discos de Willy é muito pouco. Sendo assim, incluo aqui um bônus, para atiçar ainda mais a curiosidade do leitor.

Raíces de América - Fruto do Suor [1982]

Surgido no Brasil para um espetáculo musical, com produção e direção a cargo do produtor Enrique Bergen, como uma espécie de união contra a ditadura que assolava a América do Sul nos anos 70, o Raíces da América uniu músicos argentinos, chilenos e brasileiros, e dentre eles, Willy Verdaguer e o velho parceiro Tony Osanah. Seus dois primeiros álbuns traziam fortes críticas à opressão que o povo latino-americano sofria contra os militares, mas é em Fruto do Suor que o grupo se torna um dos queridinhos dos movimentos estudantis Brasil (e por que não, América Latina inteira) à fora. Baseado em um som carregado de temas políticos, folclóricos, cotidianos e musicais, que privilegia as raízes musicais dos países supracitados, o Raíces da América tem exatamente em Willy  um dos seus pilares centrais. Ele compôs a folclórica "Pajarito Gorríon", mas não é como compositor que ele brilha, mas sim, ao violão, e claro, no baixo. Sua veia de criar ótimos riffs está no violão-baixo de "Charanguito" (admire a linha que ele constrói aqui), na ótima "Canción Con Todos", com o baixo carregado de efeitos, ou na flamenca "Angelitos Negros", cujo baixo retumba junto das castanholas de forma espetacular. Mas são versões mais que fantásticas que se destacam ao longo de Fruto do Suor. O grupo revisita a linda "Pedro Nadie", obra do ítalo-argentino Piero, que havia ganho o V Festival Internacional da Canção de 1970, saudando o trabalhador do campo, mandam ver em uma épica versão para "O Violeiro" de Elomar, aqui batizada "El Guitarreiro", emocionam na fundamental "Canción Para La Unidad Latinoamericana" de Pablo Milanés, com um show a parte do baixo de Willy, e eternizam uma das mais belas versões para "O Que Será" (Chico Buarque), com Willy brilhando agora ao violão e também no órgão. A versão para "Soy Loco Por Ti América" (de Gil, Capinan e Torquato Neto) sacudiu bastante o povo brasileiro, e claro, o baixo de Willy marca presença no riff inicial e conduzindo essa dança com muita energia, assim como fôra em Caetano Veloso. O ápice do álbum é a faixa-título, obra-prima na carreira de Tony Osanah e Enrique Bergen, cuja linha de baixo de Willy conduz o forte texto da dupla, exaltando a força dos imigrantes que auxiliaram a construir a América do Sul, e que por diversas atrocidades e interesses, separaram em países povos irmãos, clamando por não serem chamados de estrangeiros, em um país construído por todos e que não tem dono, A canção foi segunda colocada no Festival MPB Shell de 1982, promovido pela Rede Globo, e tornou-se o hino dos imigrantes latinos que vivem no Brasil. Disco fundamental em qualquer Diretório Acadêmico das universidades de nosso continente, de um grupo que eternizou um momento triste que infelizmente, as vezes parece querer retornar para assombrar nossas vidas. 


quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Ouve Isso Aqui: 1975 por Mairon Machado


 Com André Kaminski, Daniel Benedetti, Davi Pascale, Marcelo Freire e Marcello Zapelini

E coube a mim a tarefa de encerrar as indicações de 1975. Tarefa extremamente difícil, pois realmente, 1975 é um ano ímpar (com o perdão do trocadilho) na história da música. De imediato, com a sugestão que louvo ao Marcelo por ter dado, pensei em trazer seis discos nacionais. Afinal, 1975 fez o Brazil parir inúmeros álbuns excelentes, que ficaram de fora das listas, e que merecem uma audição afundo de meus colegas.

Mas preferi manter o respeito aos digníssimos consultores, e seguir o padrão 5 internacionais e 1 nacional. Mas não qualquer nacional, talvez o melhor disco nacional da década de 70 (junto de Falso Brilhante, de 1976), e que a imagem destacada já entrega qual é. Muito obrigado à todos os que leram, comentaram e participaram desta série, e que em 2026, possamos seguir, agora com indicações de 66, 76, 86, o que será que virá? Boas festas e um excelente 2026 para vocês!


Alphonse Mouzon - Mind Transplant

Mairon: 1975 é o ano mirabilis de Tommy Bolin. O cara participou de quatro discos incríveis em menos de 12 meses, e para mim, é complicado dizer qual o que mais gosto (a saber, além deste tem também Moxy, do grupo de mesmo nome, o conhecidíssimo Come Taste the Band e o citado em outra edição do Ouve Isso Aqui 1975, Teaser). Cheguei ao Alphonse Mouzon por um acaso, através desta perseguição à tudo o que Bolin gravou, e cara, meus butiás caíram do bolso ao ouvir "Mind Transplant", a faixa que abre o disco, e que além de mostrar o talento fenomenal de Mouzon na bateria - um dos melhores que já ouvi, aliás - também mostra uma banda fodida, páreo duro com o gigante Billy Cobham e seu Spectrum. A conexão entre estes discos, além de ambos serem de bateristas, a guitarra de Bolin. E o guri brilha. Olha a rifferama de "Carbon Dioxide", junto do baixão de Henry Davis, em uma faixa que também conta com um excelente solo do guri, que dá seu espetáculo a parte em "Nitroglyceryn", porrada e violência sonora descomunais, e na espetacular e viajanta "Golden Rainbows", forte candidata a melhor do álbum. Ao mesmo tempo, o outro guitarrista, Lee Ritenour não fica atrás na pancada "Ascorbic Acid", com uma introdução impressionante por Mouzon, e uma velocidade que não há explicação. Faixas mais cadenciadas, como "Happiness Is Loving You", "Snow Bound" ou a Sly Stoniana "Some of the Things People Do", destacam também uma ótima participação dos teclados, e principalmente, faz com que o artista central, Mouzon, deixe os seus colegas também brilharem. Resumindo, Mouzon destrói praticamente o tempo inteiro, tocando muito, a banda é foda pra caralho e Bolin estava muito à frente de seu tempo, o que já disse muitas vezes. Cada vez que ouço seus discos, fico ainda mais impactado com o que ele gravou em tão pouco tempo.

André: Um belo disco de um artista que apenas tinha ouvido falar e nunca ouvi nada. Mouzon é um ótimo baterista de jazz-fusion e com a adição do excelentíssimo Tommy Bolin nas guitarras fez deste Mind Transplant uma surpresa mais do que agradável para mim. Veloz, mas também sabendo ser funky e grooveado, adorei faixas como "Carbon Dioxide" e "Nitroglycerin". Mairon deu um belíssimo tiro aqui.

Daniel: Que Alphonse Mouzon é um dos grandes bateristas do Jazz Fusion não há dúvidas, e sua presença no álbum de estreia do Weather Report é uma prova da afirmação. Em Mind Transplants, Mouzon continua monstruoso na bateria, mas a “cena é roubada” pelo incrível guitarrista Tommy Bolin, com solos de arrepiar! Este disco é mais uma evidência do talento de Bolin, e de suas muitas facetas musicais. Portanto, fãs do guitarrista precisam ouvi-lo.

Davi: E aí? Billy Cobham ou Alphonse Mouzon? Spectrum ou Mind Transplant? Se você é um amante de música instrumental, um apreciador de fusion ou um baterista (profissional ou não), diria que ambos são audições obrigatórias. Mouzon dá, simplesmente, uma aula de técnica e feeling em faixas como "Nitroglycerin" e "Mind Transplant". Como se não bastante o ótimo trabalho de bateria do músico, ele ainda reuniu um time estelar para acompanhá-lo contando com a presença dos guitarristas Lee Ritenour e Tommy Bolin. Quem acha que os músicos atuam apenas fazendo acompanhamento, engana-se. As guitarras tomam à frente em diversos momentos em faixas como "Carbon Dioxide" e "Ascorbic Acid", mas a cereja do bolo ficam mesmo com as canções "Snow Bound", "Happiness Is Loving You", que são extremamente melódicas, além da única faixa cantada: a funky "Some of The Things People Do".

Marcelo: Eis que, ironicamente, a nossa lista dessa empreitada de falarmos sobre grandes discos de 1975 termina com o nosso big boss Mairon! E como não podia deixar de ser, a lista dele é a mais, digamos, peculiar e desafiadora de todas... A começar por Alphonse Mouzon e seu Mind Transplant: há algo de singular nesse álbum, pois ele é, ao mesmo tempo, a síntese e a implosão do jazz fusion setentista. Em 1975, o gênero já havia atingido uma maturidade técnica impressionante — bastava ouvir Weather Report, Mahavishnu Orchestra ou Return to Forever, todos inclinados a uma mistura demencial de virtuosismo, eletricidade e ambição. Mas Alphonse Mouzon, vindo da escola de McCoy Tyner e do próprio RTF, tinha outra abordagem: menos misticismo, mais rua; menos transcendência cósmica, mais músculo. Mind Transplant é seu disco mais ousado justamente porque não se limita ao fusion tradicional. É um álbum que se coloca no cruzamento entre jazz, funk pesado, rock instrumental e até um flerte com o que, anos depois, chamaríamos de groove metal. Mouzon é constantemente (e até insistentemente, eu diria) comparado a Billy Cobham, mas também pudera: ambos são virtuosos e rápidos; ambos têm a fusão em seu dna musical e participaram de bandas icônicas (Mouzon na Weather Report e na Eleventh House, e Cobham na Mahavishnu); e sem falar que ambos empregaram o talento de Tommy Bolin, seja no Spectrum de Cobham, seja neste álbum que ora vos resenho (e que foi apelidado de Spectrum 2). E é nesse ponto que quero centrar forças: muito dessa singularidade vem da presença de Bolin. O guitarrista — que naquele mesmo 1975 gravaria com o Deep Purple o incrível Come Taste the Band e seguiria para sua curta, mas brilhante carreira solo — surge aqui completamente à solta! Suas linhas de guitarra são elétricas, às vezes cortantes, às vezes espaciais, sempre com uma liberdade que poucas bandas de rock lhe permitiam. Jeff Beck, ao lançar Blow by Blow naquele mesmo ano (E QUE ANO, MEU DEUS, FOI ESSE 1975!), buscava elevá-lo ao patamar de “guitarrista-jazzista”; Mouzon, por sua vez, apenas pediu: toque como você quiser. Ou seja, esse Mouzon sabia das coisas... O resultado, portanto, é um álbum que alterna força bruta e elegância rítmica. Mouzon lidera tudo com uma bateria pulsante, de acentos secos, sincopações rápidas e explosões de técnica. Mas ele também toca teclados e arranjos, construindo camadas que dão unidade ao disco inteiro. Mind Transplant soa vivo porque é visceral: uma jam intelectualizada, mas espontânea. Um disco que une mundos e que, até hoje, permanece como cultuado por músicos, mas subestimado pelo grande público. Boa sacada do Mairon. Meus destaques: “Mind Transplant”, “Snow Bound”, “Golden Rainbows”. A gema escondida: “Carbon Dioxide”.

Marcello: O baterista de jazz fusion era um dos mestres desse instrumento, não resta dúvida. Em oito músicas relativamente curtas (a mais longa é “Golden Rainbows”, e mesmo ela não chega aos 7 minutos), Mouzon destaca sua bateria (e seu vocal) junto de um bom time de músicos, que inclui os guitarristas Lee Ritenour (sim, eu sei que ele lançou uns discos bem ruins nos anos 80, mas o cara toca muito) e Tommy Bolin (que faz um solo bem no seu estilo em “Golden Rainbows”) nas guitarras. As músicas transitam do rock ao funk dentro do quadro de referência do jazz, e é difícil destacar alguma, pois, se você gosta do estilo, vai encontrar muita coisa para se divertir, e se não gosta, provavelmente não vai mudar de ideia; mas chamo a atenção para “Ascorbic Acid”, a já citada “Golden Rainbows”, a explosiva (desculpem, não resisti) “Nytroglicerin” (outro momento de brilho de Bolin), a faixa-título e a bela “Happiness is Loving You”. Claro que a bateria de Mouzon é o carro-chefe, mas as guitarras e o baixo recebem (merecido) destaque nos arranjos. Este foi um disco que conheci muito tempo atrás por causa da participação de Bolin, e fazia bastante tempo que não ouvia; foi um prazer reencontrá-lo na lista do Mairon. O único defeito do disco é ser muito curtinho (pouco mais de 33 minutos)...


Esperanto - Last Tango

Mairon: Gravado no famoso Chateau de Herouville , este álbum encerra a curta discografia de três álbuns do grupo belga/vários países Esperanto. Comandados por Raymond Vincent (violinos), este octeto fez estripulias pela Europa na primeira metade dos anos 70. Seu canto do cisne é uma obra-prima, misturando elementos do rock progressivo com a nascente disco music, além da cultura do leste europeu e do folk americano. Essa mistura de elementos sonoros era a grande proposta dos caras - daí o nome - e eu sempre fico impactado ao ouvir seus discos, mas em especial Last Tango. Canções como "Obsession", "Painted Lady" e "Still Life", criam arranjos pesados para o trio de cordas, que somados ao delicado trabalho de piano e teclados de Bruno Libert, a pesada cozinha dos irmãos italianos Tony (bateria) e Gino (baixo) Malisan, além da dupla vocal de Kim Moore e Roger Meakin, contrastando os vocais feminino e masculino, fazem uma atmosfera única na música mundial. Basta ouvir a mini-suíte "The Rape" que você experimentará doses cavalares dessas variações musicais do octeto, onde todos os instrumentos brilham equanimemente. A chave de ouro é a Maravilhosa versão para "Eleanor Rigby", onde o Esperanto decoloniza (palavra da moda) as influências britânicas e cria o que podemos dizer ser o prog-esperanto. Ouçam sentados, por que é de cair para trás. E conto mais sobre essa bandaça aqui.

André: Já havia ouvido este disco há alguns anos e outra ótima lembrança do Mairon aqui. É mais um daqueles casos de rock sem guitarras mas que a gente nem percebe que é só o teclado e os violinos que carregam as melodias. É um disco curiosamente bem enérgico, que se tivesse guitarra, provavelmente seria classificado como metal progressivo sinfônico. Mas estes belgas fizeram um trabalho bem interessante e criativo, que vale a pena dar uma chance.

Daniel: Nunca tinha ouvido este disco, conhecia a banda só de nome. É um trabalho interessante, um prog rock com muitas alternâncias de dinâmicas dentro da mesma canção, muita influência clássica, sendo que os violinos brilham principalmente em “The Rape”. Para fãs de rock sem guitarra, é um prato cheio.

Davi: Essa é uma banda que já havia ouvido falar, mas nunca tinha parado para escutar. A proposta deles é bem bacana. Eles fazem um rock progressivo sem se utilizar de clichês. Por exemplo, muitos vão dizer que violino nesse tipo de som não é exatamente uma novidade. E, realmente, bandas como o Kansas (que também aparece nessa lista) já utilizavam o instrumento. A diferença é que o Kansas usa o instrumento complementando o arranjo, no caso do Esperanto eles são a tônica do arranjo. Não há guitarras por aqui. É justamente o violino quem acaba trazendo o peso das canções. Os vocais - interpretados por Roger Meakin e Kim Moore - são bem resolvidos e muito bem executados. E além da performance dos músicos ser muito boa, as canções também são excelentes. A única que não curti foi "Obsession", as demais são muito bacanas onde colocaria como destaque "Still Life", "Painted Lady", além da bela versão de "Eleanor Rigby". Ótima recomendação!! Vou tentar conseguir um exemplar para a minha coleção...

Marcelo: O Esperanto Rock Orchestra sempre foi um caso peculiar no progressivo: uma banda multinacional, com orientação orquestral, mas que jamais caiu no excesso barroco do rock sinfônico mais comum. Em The Last Tango, o grupo alcança aquilo que parecia buscar desde o início: um equilíbrio entre exuberância instrumental e uma musicalidade que nunca deixa de ser acessível, por vezes até pop, sem perder densidade. 1975 foi um ano em que o progressivo começava a mostrar sinais de desgaste comercial, mas não criativo (basta lembrar que o sublime Relayer do Yes é de 1975). Nesse contexto, o Esperanto surge com uma estética singular: cordas em destaque, arranjos que lembram música de cinema, vocais que vão do teatral ao delicado e uma forte base rítmica que impede que tudo soe etéreo demais. O disco funciona como uma pequena ópera moderna, mas sem a megalomania pretensiosa de outros projetos da época. A faixa-título é o ápice da ousadia: um tango distorcido, dançante e dramático, que mergulha o ouvinte num clima argentino repaginado para o rock setentista. Em contrapartida, outras faixas exploram texturas mais sinfônicas, lembrando por vezes Renaissance, Klaatu e até algumas passagens de ELO, embora sempre com um toque mais progressivo que radiofônico. Os detalhes orquestrais, seus vocais múltiplos, seus interlúdios camerísticos, tudo no disco parece calculado e, ao mesmo tempo, orgânico. Um disco que envelheceu bem e que merece ser revisitado com carinho, nem que seja para tomar um susto com a interessantíssima cover de “Eleanor Rigby” dos Beatles, que abre o álbum. Meus destaques: “The Last Tango”, “Painted Lady”, “Obsession”. A gema escondida: “Lonely Road”.

Marcello: Essa banda eu nunca tinha ouvido falar. E procurando informações sobre eles, encontrei apenas um nome conhecido, o do violinista Godfrey Salmon, que trabalhou com o Emerson, Lake & Palmer em meados da década de 70. O disco abre o disco com uma versão de “Eleanor Rigby” que começa tão diferente do original que você se pergunta se não há um engano. Mas quando Roger Meakin e Kim Moore começam a cantar, a gente reconhece a letra; no final das contas, uma versão excelente! “Still Life” é hard rock com violinos; outra música com longa introdução instrumental, com bom piano de Bruno Libert. Já “Painted Lady” é um pouco mais pop e tem menos presença das cordas, mas não é menos interessante, ao passo que “Obsession” é mais suave e traz belo trabalho vocal de Kim Moore – uma ótima cantora, por sinal. “The Rape” é o épico do disco, com mais de 12 minutos bastante variados e os violinos formando um arranjo impressionante. Os vocais de Roger Meakin são fantásticos nessa música, a melhor do disco. A faixa-título encerra o disco e traz, como o título sugere, influências do tango argentino, mas, independentemente disso, foi a que menos gostei, mas não prejudicou o disco. Antes de concluir, um detalhe relevante: o baixista Gino Malisan é excelente e se destaca praticamente em todas as músicas. Last Tango foi uma surpresa bem agradável, um disco que provavelmente nunca ouviria se não tivesse surgido nessa lista; vou atrás dos outros dois álbuns do grupo.


Kansas - Song For America

Mairon: Quando comecei a montar minha lista, percebi que haviam alguns artistas que tinham dois discos de 1975. O Kansas era um deles, e fiquei em dúvidas se este ou Masque iriam agradar mais meus queridos colegas, bem como iriam gerar comentários mais positivos. Escolhi Song For America por preferência pessoal (mesmo adorando Masque), só que acho que aqui, o Kansas consegue fazer um trabalho coeso de misturar o prog com o hard, que é o que marca a banda em seus cinco (sim, cinco) primeiros discos. A longa introdução da faixa-título já é uma Maravilha Prog para ninguém botar defeito. O prog avança com naturalidade e qualidade nas fantásticas "Lamplight Symphony", estupenda, emocionante, gigante, linda, tudo de bom, e nos mais de doze minutos de "Incomudro - Hymn to the Atman", que ao vivo podia ir a 20 fácil, dependendo da inspiração do solo de bateria, com uma construção arrepiante, e com destaque, conforme citado, para o longo solo de bateria já bem incomum em 1975, e com uma letra que mostra os caminhos religiosos que Kerry Livgren seguiria anos depois. Estas faixas destacam a exuberância e o talento de Livgren (guitarras, teclados), Steve Walsh (vocais, teclados), Robby Steinhardt (violino, vocais) e principalmente, os injustiçados Dave Hope (baixo), Phil Ehart (bateria) e Rich Williams (guitarras), exímios músicos pouco - ou quase nada - citados nas listas de melhores instrumentistas, mas que deveriam ser mais reconhecidos por seus trabalhos incríveis. Ao mesmo tempo, as hardeiras de "Down the Road" e "The Devil Game" revelam o lado pesado do sexteto, com ótimos teclados e muita guitarra estourando as caixas de som. E o blues de "Lonely Street" é uma ovelha negra que não pode jamais passar despercebida, com uma das melhores interpretações vocais de Walsh. Veio Leftoverture, o Kansas encontrou sua fórmula perfeita e se torna gigante com Point of Know Return, mas neste seu início, cara, que bandaça! Por fim, não tem a ver com o disco, mas sempre que vou escrever sobre o Kansas, lembro de um tal e famoso V. B., que simplesmente traduziu o livreto que vem no Box da banda lançado em 1994, como se o texto fosse dele, na cara dura, sem nem citar o boxezinho, e na parte onde o box termina, simplesmente o tal texto - que eu tenho guardado aqui - se enrola e acaba. Bota palhaçada. Mas não, se você ouvir Song For America, você não se sentirá um palhaço! Discaço!

André: Sempre tive a sensação que o Kansas só se uniu ao prog da época mais para seguir a onda do que fazer o que eles realmente queriam que era o hard rock/AOR dos anos seguintes. Mas ainda assim, fazem essa mistura de prog/hard com maestria e Song for America é outro disco bastante agradável. Não está lá entre os meus  favoritos deles, mas músicas como "Lamplight Symphony" e "Lonely Street" me apetecem.

Daniel: Disco muito bom do Kansas, em que a banda está lapidando sua sonoridade. "Incomudro - Hymn to the Atman" é muito boa, mas a faixa-título é simplesmente um espetáculo. “Lonely Street” e “The Devil Game” possuem uma pegada Hard Rock, sem perder a complexidade natural do Kansas. Enfim, uma lembrança muito boa.

Davi: Para mim, o melhor álbum dessa lista. Em Song For America, o Kansas ainda não tinha aquela pegada de rock de arena que passou a permear seus trabalhos desde Leftoverture. A jogada aqui era a mesma de seu debut, ou seja, o blend de rock progressivo (presentes nas canções de Kerry Livgren) com hard rock (que ganhava força nas canções de Steve Walsh). Porém, os arranjos aqui estavam mais elaborados. Os violinos de Robby Steindhart sempre foram um diferencial do grupo, e aqui já se fazia presente. O álbum é bem consistente, mas se eu tivesse que escolher algum destaque ficaria com "Lonely Street", além da lindíssima faixa-título, que é a grande canção desse trabalho.

Marcelo: Sempre que ouço esse álbum penso que os caras do Kansas já sabiam de tudo... Ou quase tudo, pois a capa desse álbum é horrorosa. Seu álbum de estreia, Kansas, é lançado em março de 1974; Song for America, em fevereiro de 1975, mesmo ano em que lançam Masque (em setembro); em outubro de 1976, sai Leftoverture e em outubro de 1977, Point of Know Return! Em menos de 5 anos, os caras botam para quebrar (em 1978, sai o primeiro ao vivo deles), só que é no Song for America, e não no álbum de estreia, que o grupo rapidamente consolida sua identidade: um progressivo norte-americano que não tenta copiar o europeu, mas dialoga com ele enquanto incorpora country, hard rock e harmonias vocais folclóricas dos EUA em sua forma mais ambiciosa. Steve Walsh e Kerry Livgren já aparecem como forças criativas igualmente importantes: o primeiro mais direto, energético, teatral; o segundo mais místico, expansivo, reflexivo. A fusão dessas personalidades move o álbum inteiro. A faixa-título é um épico de quase dez minutos que mistura críticas ambientais, um lirismo quase pastoral e passagens instrumentais que lembram Gentle Giant e Yes, porém sempre com aquele violino característico de Robby Steinhardt que torna tudo identitário. “Lamplight Symphony” é a minha música favorita da banda (depois de “Dust in the Wind”, óbvio) e provavelmente uma das composições mais belas do Kansas: grandiosa, tocante, com uma melancolia que antecipa o tom mais espiritualizado das obras posteriores de Livgren (alô, Mairon, olha uma maravilha prog aí dando sopa!). Aí, depois, eles vêm dom “Lonely Street”, que oferece o contraponto: um rock mais áspero, com ecos de Zeppelin e do blues rock americano. Diferentemente do progressivo britânico, que em 1975 já flertava com estruturas mais difusas, o Kansas ainda investia em composições sólidas, com riffs marcantes, refrões memoráveis e arranjos complexos que nunca perdiam o fio narrativo. Song for America é, assim, o retrato de uma banda que sabia equilibrar virtuosismo e emoção, técnica e melodias fortes, algo que se tornaria sua marca nos anos seguintes. Meus destaques: “Song for America”, “Lamplight Symphony”, “Lonely Street”. A gema escondida: “Down the Road”.

Marcello: O segundo álbum do Kansas confirma a excelência de Kerry Livgren como instrumentista e compositor (três das seis músicas são exclusivamente de sua autoria e uma quarta tem sua coautoria), e traz uma banda ambiciosa, que tenta superar sua (boa) estreia. A faixa-título é um clássico atemporal, com boas variações no som, ótimo desempenho instrumental (particularmente do violinista Robby Steinhardt) e vocais perfeitos de Steve Walsh com Steinhardt no apoio. O outro épico do disco, “Incomudro - Hymn to the Atman”, não fica atrás, trazendo a banda em pleno voo para a estratosfera. Some a essas duas a ótima “Lamplight Symphony”, e o disco não precisava de mais nada, mas ainda há as ótimas “Down the Road” e “Lonely Street”, e o resultado é um dos melhores discos do grupo, ainda que longe de ser o mais bem-sucedido (isso aconteceria futuramente, com Point of Known Return); o som do grupo beirava o prog, com generosas doses de hard rock na guitarra do subestimado Richard Williams e na bateria pesada e bem elaborada de Phil Ehart. O Kansas se perderia depois por aí (por exemplo, nunca consegui gostar de Masque, o terceiro LP – ainda bem que eles se recuperaram com Leftoverture), mas em Song for America ele se mostra uma banda em pé de igualdade com os progressivos britânicos, e o LP só não é o melhor deles porque nada bate o fenomenal Two for the Show. Ótima recomendação do Mairon.


SBB - Nowy Horizont

Mairon: Tem bandas que surgem para nós e a gente acaba não lembrando como. É o caso do SBB. Eu creio que conheci a banda por conta de um antigo site russo de downloads, e baixei o primeiro disco deles (homônimo), gravado ao vivo, e que mostrava um grupo com forte influência do blues britânico (o nome da banda, SBB, vem de Silesian Blues Band ...) e, principalmente, do hard setentista, com o baixo carregado de distorção solando como instrumento central. Mas lembro claramente de quando ouvi Nowy Horizont, o segundo disco do trio (agora com SBB sendo Szukaj Burz i Buduj, ou seja, Busque, Rompa e Construa), e logo de cara, me deparei com algo mais progressivo, lembrando um Emerson Lake & Palmer com guitarras, e no qual o líder da banda, Josef Skrzek sai do baixo para assumir os teclados com uma perfeição digna dos melhores músicos de sua geração. Apenas na faixa título Skrzek demonstra todo seu talento solando com o baixo, usando distorções diversas e mandando ver. Mas falar de Skrzek é cair no molhado, o cara é sensacional e talvez o maior músico do rock polonês, e portanto, quero ressaltar a qualidade e o talento de seus dois companheiros, o guitarrista Antymos Apostolis e o baterista Jerzy Piotrowski. Cara, esses malucos tocavam muito. Na contra-capa do álbum, está lá; "a musica deste grupo é uma continuação de uma 'mutação' das propostas artísticas e experimentais do legendário intrumentista John 'Mahavishnu' McLaughlin", o que diz muito sobre o que esperar aqui. Para quem curte um prog mais "comum", o lado A é exuberante,  As duas primeiras faixas, emendadas, que alternam-se musicalmente em solos de teclados, piano, guitarra, e uma bateria avassaladora. A assustadora "Ballada O Pięciu Głodnych", com Skrzek declamando um poema em polonês, irá é uma viagem literalmente. Mas é no lado B, na suíte "Wolność Z Nami", que o bicho pega. O arsenal de teclados é colocado à prova, e as camadas sonoras e vocalizações viajantes embriagam e encantam facilmente na primeira metade da canção. A segunda metade? Bom, procure e ouça, as diria que é um delírio musical que abriria um grande sorriso na face de Stravinsky - que puta duelo de guitarra e teclados, vá tomar banho! Vinte minutos para qualquer amante do progressivo se deliciar! O SBB elevaria suas qualidades prog ao máximo em Ze Słowem Biegnę Do Ciebie (1977) e SBB (1978), mudaria sua sonoridade para conquistar o ocidente em 1978 (e não deu certo), voltou a fazer prog de alta qualidade nos anos 90, mas tudo isso só foi possível por conta deste álbum. Discaço!

André: Sei que o Mairon é fanzaço desta banda e dou razão a ele. E caras, o baterista Jerzy Piotrowski rouba a cena. Toca muito. É mais um disco progressivo da lista do nosso doutor, desta vez caindo mais para o lado do rock espacial misturado a uns jazz-rocks. Fazia também muito tempo que eu não pegava um disco do SBB para ouvir e agora lembrei o porquê de eu haver gostado bastante. Único problema mesmo é a produção ruim, mas esperar o quê de uma Polônia sofrendo horrores nas mãos dos soviéticos? Acho até ter sido um feito incrível terem conseguido gravar um disco neste estilo.

Daniel: Mais um álbum de viés progressivo e uma obra bastante interessante. O grupo faz um prog com evidente pegada “jazzística”, especialmente na canção que encerra o disco (e que tem perto de 20 minutos – e um nome impronunciável). Preciso ouvi-lo mais vezes para ter uma melhor absorção da proposta, mas, à primeira ouvida, recomendo.

Davi: Lembro que o Mairon já tinha comentado dessa banda com a gente, mas ainda não havia parado para ouvi-los. Dei uma pesquisada sobre os caras e descobri que se trata de uma banda polonesa, considerada uma espécie de supergroup. Nowy Horizont é o primeiro álbum de estúdio deles, mas confesso que não me empolgou. Os músicos são muito bons, onde vale um destaque para o tecladista Józef Skrzek, que consegue chamar a atenção em duas frentes: no trabalho de hammond/piano - que acaba sendo o creme do disco - e pelo trabalho de contrabaixo, que tem bastante evidência na mixagem. O LP conta com 5 músicas apenas. As 2 primeiras - "Na Pierwszy Ogień " e "Błysk" são bacaninhas, e contam com uma levada de baixo/bateria que me remeteu um pouco ao que o Deep Purple costumava fazer nas jams que faziam nos tempos de Ritchie Blackmore. Mas, a partir daí as músicas ficam chatas. "Nowy Horizont" e "Wolność Z Nami", as mais longas do álbum, contam com bastante experimentações, com Józef explorando uma sonoridade mais cósmica nos teclados. Não tenho nada contra a prática, mas as viagens deles aqui não me encantam. E, para piorar, achei a qualidade de gravação ruim, som abafado, sem brilho. Por ser um grupo formado por mestres do rock polonês e com uma influência tão grande, esperava mais.

Marcelo: Em que outro lugar eu seria apresentado a essa banda de progressivo polonês?! Somente em uma lista do Mairon mesmo... Nunca tinha ouvido falar nos sujeitos. No link do YouTube em que ouvi o álbum completo, o texto de apresentação diz que “de todas as bandas fantásticas que surgiram na Polônia (e há muitos ótimos exemplos), o SBB é o precursor da mistura eclética de jazz sinfônico e experimental.” Bem, realmente é um trabalho que condiz com a expressão “mistura eclética”, pois combina psicodelia tardia, jazz improvisado, rock experimental e uma melancolia muito específica, talvez coisa de polonês mesmo. Ele tem uma coisa entre o lirismo e a tensão, entre o contemplativo e o desarranjado. Não vou negar que Nowy Horizont é um álbum que se desdobra lentamente (ouvi-o duas vezes e decidido a não fazê-lo uma terceira vez): na primeira, achei chatíssimo, na segunda, esquisito, mas já gostando de um trecho aqui, outro ali. Suas longas composições funcionam como viagens internas, com temas que emergem, desaparecem, ressurgem transformados. Embora se conecte a nomes como Soft Machine, Pink Floyd fase Meddle e algumas vertentes do krautrock, não consegui curtir muito. Meu destaque: “Na pierwszy ogień”. E confesso que, pela primeira vez em todos os discos de todas as listas, não consegui desvendar uma gema escondida.

Marcello: A única banda polonesa que conhecia até ouvir este disco era o Riverside, e fui conhecer algo a respeito do SBB por causa da resenha que o próprio Mairon fez da box set que reúne os discos da banda. Mas só parei para ouvir quando a lista nos foi passada. O trio formado por Józef Skrzek (baixo, teclados, vocais), Apostolis Anthimos (guitarras, bateria, teclados, baixo) e Jerzy Piotrowski (bateria) apresenta aqui um trabalho predominantemente instrumental, com destaque para a bela “Nowy Horyzont” (com excelentes teclados) e para a longa “Wolność Z Nami”, com mais um belo trabalho de Skrzek no piano e alguns wordless vocals. “Ballada O Pięciu Głodnych” se diferencia das outras por trazer os vocais de Skrzek declamando a letra, mas a música não chegou a me cativar; no fim das contas, o trabalho instrumental é o mais interessante do SBB, ao menos neste disco, com os teclados viajantes de Skrzek, a guitarra insana de Anthimos e a bateria imprevisível de Piotrowski. O fato de o álbum ter sido gravado num país da Cortina de Ferro nos anos 70 não deixa de ser um aspecto a destacar, pois, afinal de contas, bem poucas bandas da região chegaram aos nossos ouvidos. O disco é muito bom e me motivou a buscar conhecer mais do trabalho da banda, mas não entraria numa lista de melhores do ano.


UFO - Force It

Mairon: Segundo disco da trup de Phil Mogg e Pete Way com o alemão Michael Schenker, agora não mais um guri, mas um ser capaz de assinar sete das nove músicas do disco, isto com apenas 20 anos. Force It é um disco sensacional, daqueles que sabemos não ser o melhor de uma banda, mas que dá gosto de ouvir. O que Schenker faz na criação de faixas menos comuns como "Love Lost Love" já é o suficiente para adorarmos o disco. O uso de passagens acústicas ("High Flyer") e das inspirações zeppelianas ("Dance Your Life Away") são algo que se destacam fácil em uma primeira audição. Mas são nas clássicas, e principalmente, que o UFO se torna o gigante que virou, pois nada, nada na segunda metade dos anos 70, teve tanta potência hard quanto essas faixas e o que o UFO fez até Strangers in the Night (ok, Obsession é bem experimental, mas mesmo assim, é um disco impecável). A presença do piano elétrico de Chick Churchill deu um gás a mais para o grupo, que criou soberanidades do porte de "Out In The Street". A hardeira pesada de "Shoot Shot", "Mother Mary" e "Let It Roll" são para sair pulando pela casa, "This Kids" e Minha favorita do disco (e top 3 do UFO), é daquelas que pouca gente valoriza, a espetacular "Too Much of Nothing", uma performance vocal sensacional de Phil Mogg, e na verdade, uma música indescritível que eu adoro sair gritando pela casa os "I used to cryyyyyyyyyyyyyy ...". E o que é aquele sustain que o Schenker cria nesta faixa?? Puta que pariu!  Vocais muito bem trabalhados, excelente casamento da guitarra com o baixo, e um pouco comentado Andy Parker socando seu kit são outros grandes destaques deste disco fenomenal - mais um trocadilho infâme, eu sei - que influenciou toda a NWOBHM anos depois (pergunta para o patrão Harris o que ele acha deste disco). Comento mais sobre ele aqui, e obrigado por terem me dado a oportunidade de indicar este que desta lista, julgo se o principal que deveria estar na lista de 1975 original.

André: Vixe, não tem nem o que falar muito. Qualquer coisa setentista que contenha Michael Schenker em seus créditos é trabalho da mais alta qualidade. Phenomenon do ano anterior já é excepcional, e este segue no mesmo nível.

Daniel: De longe, é o meu preferido da lista. É o UFO em seu auge, com a química entre Michael Schenker e Phil Mogg, os principais compositores desta fase, rendendo excelentes canções. Aliás, uma amostra do talento de Phil como cantor está em "High Flyer". “Let It Roll” e “Shoot Shoot” são provas do poder do hard rock do grupo. A pesada "Too Much of Nothing" disputa o posto de preferida do álbum com a suave "High Flyer", uma canção com o DNA melódico do UFO. Disco maravilhoso.

Davi: Um dos grandes clássicos da carreira do UFO. O lineup aqui - unindo as guitarras de Michael Schenker, o baixo de Pete Way e os vocais de Phil Mogg - certamente foi um dos melhores do grupo britânico. O disco já começou a causar por conta da polêmica capa que trazia um casal brincando de fazer neném em uma banheira. É claro que a gravadora iria forçar uma nova arte, o que de fato acabou acontecendo. Do lado musical, não tem muito o que falar. O grupo mesclava baladas do porte de "High Flyer" com hard rocks poderosos como "Love Lost Love" e "Too Much of Nothing". A influência de Led Zeppelin corre solta tanto nas linhas vocais de "Dance Your Life Away", quanto nos riffs de "This Kid´s". Contudo, os grandes destaques do LP estão logo no início com os clássicos absolutos "Let It Roll" e "Shoot Shoot", sem dúvidas, a minha faixa predileta desse vinil.

Marcelo: De modo inacreditável, esse álbum não apareceu nem na lista oficial de 1975, nem na lista do que ficou de fora e em nenhuma das que meus colegas e eu produzimos. Aqui, ele só perde para o do Caetano. Se Phenomenon (1974) marcou a chegada de Michael Schenker e deu ao UFO um novo rumo, foi Force It que consolidou a banda como uma força criativa real dentro do hard rock inglês. 1975 foi um ano de transição para o gênero — Led Zeppelin deixaria sua fase mais grandiosa, o Black Sabbath já dava sinais de turbulência e o Deep Purple mudaria novamente de formação. Nesse cenário, o UFO aparecia como um grupo que unia o clássico hard britânico com um senso melódico que antecipava o AOR do final da década. Parte dessa transformação se deve ao jovem Schenker, que toca aqui com uma combinação raríssima de agressividade e lirismo. Seus solos são marcantes, suas frases lembram tanto o blues elétrico europeu quanto a escola mais neoclássica que viria a influenciar guitarristas dos anos 80. Phil Mogg, por sua vez, está em plena forma: cantando com uma mistura de urgência e estilo, algo entre o roqueiro de pub e o crooner de arena. Force It é direto e eficiente. Não há sobras, não há excessos. É um disco construído com foco em riffs marcantes, grooves simples e refrões que grudam. Ao mesmo tempo, a banda experimenta com toques de progressivo e, principalmente em contrastes melódicos e pequenos arpejos atmosféricos. A produção de Leo Lyons (do Ten Years After) ajuda a manter tudo coeso e quente, com aquela sonoridade analógica que só 1975 podia oferecer. É o tipo de álbum que, mesmo sem ser revolucionário, representa com perfeição um momento histórico do hard rock, e que, anos depois, seria lembrado como uma das bases estéticas do metal melódico. Indispensável em qualquer boa coleção do gênero. Meus destaques: “Let It Roll” (já abre o disco com tudo), “Shoot Shoot”, “Mother Mary”. A gema escondida: “High Flyer” (perfeita para ouvir numa madrugada de sábado em um boteco).

Marcello: Quarto LP do UFO, segundo com o menino-prodígio Michael Schenker nas guitarras, Force It é produzido por Leo Lyons (ex-Ten Years After), que trouxe seu ex-colega de banda Chick Churchill para os teclados – e a banda deve ter gostado, porque o disco seguinte (No Heavy Petting) traria o argentino Danny Peyronel como tecladista fixo. O álbum está recheado de clássicos (“Let it Roll”, “Shoot Shoot”, “Out in the Streets”, “Mother Mary” e “This Kid’s”) que, verdade seja dita, receberiam versões definitivas no maravilhoso, estupendo, fenomenal, impressionante Strangers in the Night, mas que aqui brilham o suficiente para se tornarem os principais destaques – em especial “This Kid’s”, que tem uma linda coda instrumental composta por Schenker, e que desapareceu na versão ao vivo. A baladinha “Love Lost Love” é menos conhecida, mas é outra música excelente que merece ser lembrada, e “Too Much of Nothing” é uma das poucas músicas originais do UFO sem a coautoria de Phil Mogg (é assinada apenas pelo baixista Pete Way), revelando que a banda não era apenas a dupla Mogg/Schenker. Aliás, um dos motivos pelos quais prefiro as versões ao vivo do duplo de 1979 é justamente Mogg – por algum motivo que não sei explicar, acho que ele não rendeu tudo o que podia em Force It. Mas isso não tira o mérito deste álbum sensacional, que eu coloquei na minha lista e retirei porque apostei comigo mesmo que o Mairon iria incluir na sua lista (acho que os dois somos os maiores fãs do UFO aqui na Consultoria), e, como podem ver, ganhei. O prêmio? Ouvir novamente este grande álbum, outro gol de placa nessa lista.


Nacional: Caetano Veloso - Jóia

Mairon: Mais um artista que em 1975 lançou duas obras-primas. Jóia e seu irmão gêmeo Qualquer Coisa são discos muito opostos, diferentes de outros gêmeos como Use Your Illusion ou Human Touch / Lucky Town (só para citar dois). Adoro o segundo, mas Jóia é um disco que para mim, na discografia do Caetano do velho testamento, só perde para Transa por um nariz. O disco faz o acabamento final das explorações insanas que começara no conturbado - e para mim, perfeito - Araçá Azul, onde Caetano mostra o "seu Brasil" para o mundo, e não o Brasil da ditadura, usando de prato, faca, batidas no corpo, cantorias locais, para criar música. Caetano surge agora como um grande violonista nas belas "Canto do Povo de Um Lugar", fácil a canção mais linda do disco, com um certo ar de Pink Floyd na época Ummagumma, graças a importante participação do saudoso grupo Bendegó, "Minha Mulher", homenagem a esposa Dedé, em sua interpretação única para "Na Asa Do Vento" (de Luiz Vieira e João do Valle) e na divertida "Gravidade". Ao mesmo tempo, mantém sua veia tropicalista e experimental em doideiras de desconstrução esquizóide e surpreendentes (positivas para quem gosta, ou negativas para quem detesta) como as percussivas - e de inspirações no Xingú, o verdadeiro Brasil - "Asa", "Guá" e "Jóia", que eu acredito ser a origem instrumental do que a Uakti pensou como música um dia, mas com um espetacular jogo de palavras em suas letras, usufruindo plenamente das próprias expressões orais das palavras, as palmas e batidas no corpo, além dos murmúrios vocais da extravagante "Tudo Tudo Tudo",  a orquestra de flautas de "Pelos Olhos", ou o arranjo da Banda de Pífaros de Caruaru - méritos de Perna Fróes - em "Pipoca Moderna", com um show de sobreposição vocal. E cara, sério, eu amo essas doideiras, essas criações com instrumentos exóticos, a percussão corporal, a exploração de vozes e sons guturais, principalmente quando feita com uma qualidade incrível como a das canções de Jóia, que se encaixam perfeitamente com o violão delicado e a voz suave de Caetano.  Temos a presença do genial Antonio Adolfo no órgão de "Lua, Lua, Lua, Lua", e a versão de "Help" que o baiano faz aqui para mim, apenas com voz e violão, é a definitiva, podem me jogar as pedras (em tempo, aproveito para indicar a soturna versão que ele entrega para "Eleanor Rigby" em Qualquer Coisa. Arrepiante!), e tudo acaba em samba, ou seja, "Escapulário". Quer melhor coisa para representar o Brasil? A partir de então, Caetano começou cada vez mais a frequentar a grande mídia, foi chamado de traidor, chamou o Geraldo Mayrink de burro, começou o relançamento com a Paulinha Lavigne quando ela tinha 13 anos, e ele 40, atravessou os anos 80 virado em polêmicas, e se agigantou nos anos 90 com o lançamento de "Sozinho", tornando-se um ícone amado ou odiado no Brasil e no mundo. Melhor disco desta lista, o último disco verdadeiramente tropicalista do Brasil, e como falei no texto de introdução, um dos melhores discos do país na década de 70, mas por que não, de todos os tempos! Detalhe adicional, a linda capa pintada por Caetano, e censurada pela ditadura militar.

André: A MPB pode te apresentar artistas singulares e excelentes. Mas também tem aquele lado chato, meio soporífero, com letras chatas e sonoridade que me remete ao pessoal intelectualóide das universidades brasileiras. Pois é meus caros, este é o Caetano. O artista mais chato da MPB. Sem ofensas para ti, meu caro Mairon, tirando este disco sua lista foi brilhante, mas é nessas horas que me deu saudades quando você nos fazia ouvir Los Hermanos.

Daniel: Respeito a figura, que possui um secto fiel de seguidores, mas, definitivamente, não é para mim.

Davi: Em 1975, Caetano lançou dois álbuns: Qualquer Coisa e Jóia. A ideia inicial era fazer um álbum duplo. No entanto, achou muito difícil encontrar uma linha condutora, um conceito, entre tantas canções. Por isso, optou por fazer 2 álbuns simples. Um seguindo uma sonoridade mais tradicional, outro trazendo uma pegada mais experimental. Em Jóia, o cantor mescla a delicadeza de seus violões com uma forte experimentação, usando e abusando de repetições e desconstruções. O disco, ainda que não tão difícil quanto Araçá Azul, pode assustar ouvintes mais conservadores. No entanto, quem se aventurar à embarcar nessa viagem musical encontrará grandes canções como "Minha Mulher", "Lua, Lua, Lua, Lua", "Gravidade" e "Na Asa do Vento".  Vale lembrar que, na época, Caetano Veloso teve a capa do LP censurada. A arte original trazia um desenho de Caetano, sua esposa Dedé e seu filho Moreno Veloso nús, o que foi considerado pelos censores uma afronta aos bons costumes. Uma bobagem sem tamanho. A única afronta aqui foi a sofrível versão de "Help!", mas nada que tire o brilho desse que é, sem dúvida nenhuma, um grande clássico da Música Popular Brasileira.

Marcelo: Acho que esse é o maior golaço de todas as listas de ótimos discos lançados em 1975, ano em que Caetano Veloso lançava simultaneamente (em 20 de agosto) Qualquer Coisa e Jóia, dois discos complementares que sintetizam tensões centrais de sua obra no pós-exílio. E se você, roqueiro leitor, está achando que eu, como de praxe, estou dizendo isso porque trata-se de uma obra nacional, ledo engano: o golaço está na escolha do Mairon, já que ele teria a chance de eleger Qualquer Coisa, diamante já lapidado, mas opta por essa pepita valiosíssima de nosso cancioneiro... O Brasil ainda vivia sob o peso da ditadura militar, com a censura atuando de forma sistemática sobre a produção cultural, e esse contexto ajuda a compreender o caráter ambíguo e, ao mesmo tempo contido e libertário, do projeto. Se Qualquer Coisa dialoga com a tradição das canções mais diretas e do violão em primeiro plano, Jóia se impõe como o lado mais experimental, sensorial e ousado dessa parte do díptico que os dois álbuns formam. O caminho até Jóia passa inevitavelmente por Araçá Azul (1973), certamente o trabalho mais radical da carreira de Caetano. Depois desse misto de explosão criativa e grito entalado pós-exílio, Caetano passou dois anos no Rio de Janeiro, equilibrando a vertente experimental com arranjos mais tradicionais, típicos de seus primeiros trabalhos, e então o compositor buscou um novo equilíbrio entre experimentação e comunicação. A ideia inicial de um álbum duplo, inspirada em obras como o White Album, dos Beatles, e Songs in the Key of Life, de Stevie Wonder, foi abandonada por receio de dispersar a escuta. A divisão em dois discos permitiu maior coesão interna e, no caso de Jóia, uma identidade estética mais clara do que no caso de Qualquer coisa. Mesmo sem o radicalismo extremo de Araçá Azul, Jóia segue sendo um disco desafiador. Trata-se de uma obra construída pela justaposição de linguagens: arranjos de cordas, percussões não convencionais, vocalizações livres e referências diretas a matrizes indígenas do Xingu convivem com canções de estrutura relativamente simples. As participações de Gilberto Gil, do Quarteto em Cy e de Djalma Corrêa (responsável pela percussão em várias faixas do álbum e também pela mixagem de algumas delas, sendo um instrumentista de destaque no projeto) ampliam esse espectro sonoro, transformando o álbum em um verdadeiro laboratório musical. Entre as faixas, destacam-se “Minha Mulher”, sustentada pelos violões de Caetano e Gil; “Guá”, marcada pela percussão de inspiração indígena e atmosfera ritualística; “Canto do Povo de um Lugar”, uma das composições mais emblemáticas do disco, pela conexão com a natureza e o coletivo; “Pipoca Moderna”, em que a voz assume função rítmica; a releitura intimista de “Help”, reduzida ao violão; e “Escapulário”, samba baseado em poema de Oswald de Andrade, que reafirma o diálogo constante de Caetano com a tradição modernista em seu aspecto mais emblemático: a ruptura com o clássico, com o canônico. Além da música, Jóia também ficou marcado pela controvérsia em torno de sua capa original, uma pintura sobre fotografia de Caetano nu ao lado de Dedé Veloso e do filho Moreno, censurada à época. O veto gerou polêmica, afetou as vendas e expôs, mais uma vez, os limites impostos pela repressão à liberdade artística naquele momento histórico. Passados cinquenta anos, Jóia permanece como uma obra difícil de enquadrar em rótulos ou períodos específicos. No texto-manifesto que acompanha o disco, Caetano se posiciona “contra aqueles que falam em termos de década e esquecem o minuto e o milênio”, frase que ajuda a explicar a longevidade do álbum. Em meio aos grandes lançamentos de 1975 (basta ver esta série aqui da casa), Jóia segue como um trabalho singular: menos imediato, mais introspectivo, mas profundamente coerente com a ideia de música como experiência sensível, aberta e atemporal. E palmas para a escolha do Mairon, menos óbvia do que a de Qualquer coisa e em sintonia com as experimentações de SBB, Alphonse Mouzon e Esperanto. Meus destaques: “Minhas Mulher”, “Guá”, “Gravidade” e “Canto do Povo de um Lugar”. A gema escondida: “Help”, desconstruída até o seu mínimo acorde. A outra gema mais escondida ainda: “Pipoca Moderna”: aqui é coisa de gênio, de gênios! Em 1972, Gilberto Gil grava em seu Expresso 2222 essa música, que é uma melodia de Sebastião Biano, da Banda de Pífanos de Caruaru (que toca na gravação). Aí vem o Caetano Veloso 3 anos depois e escreve a letra para a melodia de Biano, uma verdadeira maravilha da poesia modernista oriunda de Oswald de Andrade e totalmente tributária do concretismo dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e de Décio Pignatari. Ela, sozinha, já vale a inclusão do disco nesta lista.

Marcello: Caetano Veloso andava inspirado em 1975, pois além deste disco, ele lançou Qualquer Coisa simultaneamente. Ele parecia estar ouvindo muito os Beatles, pois neste regravou “Help”, e no outro, mais três músicas (até as capas aludem aos rapazes de Liverpool: Joia lembra Unfinished Music vol. 1: Two Virgins, de John e Yoko, e a outra foi baseada em Let it Be). O disco começa muito bem com a bela “Minha Mulher” (com Caetano e Gilberto Gil nos violões), tendo na sequência “Guá” (com os preciosos vocais do Quarteto em Cy), com Caetano brincando com a sonoridade das palavras e boa percussão de Djalma Corrêa; a versão para “Help” (gravada como balada, como Lennon queria originalmente) e “Na Asa do Vento”, ambas levadas por Caetano só na voz e violão, são, para mim, as melhores músicas. Os experimentos de “Lua, Lua, Lua, Lua” e “Gravidade” (apesar da letra repetitiva) também funcionam bem, e outras músicas legais são “Canto de Povo de Um Lugar” e “Pipoca Moderna”. Por outro lado, “Pelos Olhos”, “Asa” e “Tudo Tudo Tudo” não me atraíram. Tudo se acaba com “Escapulário”, poema de Oswald de Andrade cantado com acompanhamento de percussão e o vocal de As Gatas. Admito que fui ouvir o álbum com um pé atrás, pois não sou fã de Caetano e comentários que li não eram muito elogiosos, mas Jóia saiu-se melhor do que o que esperava na minha avaliação.

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